« Momento Histórico | Página Inicial | Life as it should be »
março 17, 2005
O Rapaz (irrisória tragédia de amor e morte)
O rapaz, pobre rapaz, não imaginava tudo que seria quando ela invadiu o elevador com seu perfume azedo de colônica misturada com o suor de um dia muito quente. Não pensava nada demais ao quebrar o ronronar do elevador com algum comentário sem criatividade sobre o clima. O rapaz não imaginava o efeito de seu rosto anguloso, sua barba por fazer, seu sorriso um pouco alienado, na pele daquela moça que morava no quinto andar.
Ela precisou convidá-lo para tomar uma cerveja porque o rapaz, é claro, não imaginaria. E que ingenuidade sua não perceber os sorrisos um pouco gratuitos, o jeito dela ao sentar, as suas mãos arrumando os cabelos e a ansiedade projetada no olhar. O pobre rapaz nem teve presença de espírito para, no sábado, convida-la a passar a tarde no parque que ficava nas proximidades, e teria ficado tudo por isso mesmo se, naquele domingo tórrido, um bilhetinho não passasse por baixo da sua porta. Ela recebeu-o avidamente e quase puxou-o para dentro com o olhar. Nunca ele poderia conceber a atração avassaladora que aquela sua ingenuidade provocava na moça do quinto andar. Ela sorriu mais, sentou-se mais perto e mexeu mais nos cabelos, liberando um perfume que nem esse rapaz pôde ignorar. Pobre rapaz, que um momento antes, ainda pensou, um pouco nervoso, se não estaria indo rápido demais. Naquela noite, ela recebeu-o com gritos e unhas, e quase derrubou o abajur do quarto com um golpe de pernas. O rapaz acordou assustado, no outro dia, ainda sentindo as marcas nas suas costas. Mas voltou, mais e mais vezes, e decidiu afinal que tanto grito e tanto suor não podia ser mais que o amor que havia sempre esperado para sua vida. O néscio, crente de que o amor que julgava sentir lhe proporcionava uma nobreza irrecusável, pediu em namoro a moça do quinto andar, e simplesmente não entendeu nada da risada que escapou dos lábios dela -- mais tarde, à noite, creditou-o erroneamente à felicidade. Não acreditava, nem se o explicassem com calma, que a sutil linha entre a ingenuidade que atrai e aquela que só conseguia produzir o irresistível desejo da trapaça era possível de ser cruzada com o mais simples gesto. Quando finalmente chegou, ela já havia ido, e de longe entregava seu corpo com maior ardor ainda, acendendo na alma do pobre rapaz sonhos que nunca ousara sonhar. Enquanto isso, passou a comentar dele com as amigas e vizinhas do edifício. Ria de seu porte minúsculo, dizia seu gozo ser precoce, dizia seus olhos serem cegos e, para melhor demonstrá-lo, começou a sair com o solteirão do décimo-quarto. Cuidou que todo o prédio soubesse, afinal, que se entregava ao solteirão enquanto que o rapaz, coitado, se perguntava o porquê daquela dor de cabeça tão insistente que começava a perturbar as noites de seu amor -- até se propôs a conversar com um amigo seu, médico.
Foi com absoluta surpresa que o pobre rapaz entrou no elevador para interromper um beijo ardente entre o seu amor e o solteirão do décimo-quarto, e por mais que pensasse, não sabia o que havia dado errado com todos seus sonhos, nem sabia como curar seu ego ferido.
Não é de se surpreender, por tudo isso, que na noite seguinte tenha levado consigo, de volta para seu próprio apartamento, sendo este o erro de avaliação mais primário que já cometera, a faca de cozinha com que degolou a moça do quinto andar, e justamente por causa deste deslize esteja até hoje mofando numa cela do presídio central.
Publicado por JK em março 17, 2005 11:25 PM
