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março 19, 2005

Entre umas e outras... (cinema)

Até que não posso reclamar da minha rotina cinematográfica aqui em São Paulo, já que tive a perspicácia de morar suficientemente próximo da Av. Paulista para poder chegar a vários cinemas a pé, com a maior comodidade. O difícil, é claro, é acostumar-me a pagar para ver um filme dez vezes o valor que eu costumava pagar, como estudante, em Porto Alegre. Ainda não consigo entregar mais que dez reais para a moça do caixa e não sentir-me roubado.

Mas não era disso que eu queria falar, e sim do último filme que vi e que me atingiu de forma bastante pessoal, é uma "comédia séria" chamada de Sideways - Entre umas e outras e você deve encontrá-lo ainda em cartaz com certa facilidade em qualquer cidade com uma razoável oferta de cinemas.

Acho que o filme anterior do diretor foi Confissões de Schmidt. Recordo-me, curiosamente, que meu orientador comentou vivamente sobre o filme, o que talvez fosse compreensível por ele estar numa faixa etária semelhante ao seu personagem principal -- um sexagenário trabalhador americano que precisa reconstruir sua vida a partir da nova realidade da aposentadoria. Quanto a este Sideways, não sei se é bom sinal eu ter me tocado tanto pelos personagens, principalmente o quarentão melancólico e solitário que funciona como principal protagonista da história.

Para quem não viu, a trama gira em torno de dois amigos, Miles e Jack, que saem numa viagem de uma semana pelas regiões vinícolas californianas, uma espécie de despedida de solteiro do segundo. Miles é um escritor que nunca conseguiu publicar um livro, sofre ainda pelo casamento terminado, e só consegue sentir que sua vida está indo -- ou já foi -- para o buraco. Jack, por outro lado, um ator de comerciais e telenovelas, um quarentão revivendo sua adolescência, buscando viver sempre o presente.

Os dois personagens, representando pólos distintos do universo masculino, são muito bem representados pelos seus atores, com uma simplicidade que alias é a melhor coisa do filme: Sideways chega parecendo que vai ser só uma comédia americana sem conseqüências mas você acaba irremediavelmente solidário com a infelicidade crônica de Miles e a quase infantilidade de Jack. Para o primeiro, o fracasso literário e pessoal é um buraco do qual já não acredita que seja possível sair, os vinhos guardados na adega para os "momentos especiais" nunca serão abertos, permanecendo como amuletos sagrados do seu fracasso. Jack, por outro lado, quer transar com o máximo de mulheres antes de se casar, mas por trás da sua felicidade aparente e suas sábias frases de psicanalista para tentar aconselhar o amigo deprimido, está um homem dominado por um medo terrível da solidão -- o que rende uma das melhores cenas do filme, quando ele chora como uma criança por temer haver arruinado seu iminente casamento.

O filme não comete nenhum dos tantos pecados que são padrão na indústria americana e que estragam tantos possíveis bons filmes. O resultado é um retrato do universo masculino que cativa e diverte. Foi o primeiro filme que eu assisti no Belas Artes da Consolação, o cinema mais próximo do meu apartamento, e foi uma maravilhosa estréia.

Publicado por JK em março 19, 2005 05:22 PM

Comentários

Hummm... está mnuuuito difícil imaginar com quem vc se identificou... Beijos!!!

Publicado por: Deméter em março 21, 2005 07:42 PM


Com o quarentão metido a adolescente, será? Pelo menos, em termos de conhecimentos de vinhos, nós somos parecidos...

A.

Publicado por: Alysson em março 22, 2005 02:32 AM

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