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março 14, 2005

Aventuras Urbanas

Definitivamente, não faço o tipo aventureiro. Não sinto nenhuma emoção ao ver essas propagandas em que um carro possante desliza em meio ao barro e pedras, também confesso que não tenho aspirações de colocar uma barraca nas costas e entrar no mato para dormir na companhia dos insetos e animais silvestres. Faço questão de ter sempre a mão algumas das maiores invenções da espécie humana, como o esgoto encanado e interruptores de luz.

De fato, sou um indivídio urbano, cresci assim e, por mais poluição, barulho e sujeira, até hoje não me sinto em nada compelido a mudar isso. Natureza combina com férias, combina com visitar parentes do interior, relembrar coisas da minha infância, ou passear pelo Jardim Botânico num domingo ensolarado. No dia-a-dia, estou muito bem no meio da selva de pedra. Não sou tão radical, claro, quanto um amigo que defende que a única solução para a Floresta Amazônica seria sua derrubada e sua pavimentação para transformá-la no maior estacionamento descoberto do mundo. Não, para mim é ótimo que a Floresta Amazônica esteja lá, só não me convidem para desbravá-la.

Sou um indivíduo urbano, enfim, e assim sendo as aventuras da minha vida correspondem não a caminhadas ou escaladas, mas aos momentos de descobrir uma nova cidade. Foi assim há dez anos, quando cheguei para fazer faculdade na remota província de Porto Alegre dos Casais. Agora, posso matar essa saudade da sensação de aventura urbana, de lutar para descobrir os lugares, para chegar até eles, e a ansiedade para finalmente dormir no meu apartamento, ainda tão vazio e despersonalizado. Nessas últimas noites, essa ansiedade trouxe de volta minha velha companheira das noites solitárias, a insônia. Como o colchonete improvisado onde estou dormindo é estreito demais para nós dois, trago a insônia até a mesa, até a folha de papel que substitui o computador empacotado.

Essa aventura urbana, por hora, tem dado muito certo. Mas já chega a hora de ter alguma normalidade de volta, deixando a cabeça tranqüila para pensar em ciência, que foi isso que me trouxe até aqui, em última instância. A insônia, também, moça irriquieta como é, vai acabar se chatendo com essa normalidade e indo embora, o que para mim será ótimo, se bem que certamente não tão bom para a poesia -- ao menos, a melancólica poesia das madrugadas insones.

Publicado por JK em março 14, 2005 03:08 PM

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