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janeiro 31, 2005
Cheguei
Não sei quanto vai durar e o que vai sair daqui, mas hoje posso dizer que começou a sério minha aventura paulistana. Meu computador já está aqui, desmontado ainda, mas está aqui, então as coisas estão ficando mesmo sérias...
Tenho que encontrar apartamento (por enquanto aproveito a hospitalidade de um amigo de Porto Alegre que já mora por aqui), comprar móveis, conseguir minha salinha no meu novo departamento. E ainda vou ter que dar muitas voltas, perdido por essa monstruosa cidade, procurando o que preciso. Há tempos eu pensava com meus botões que sentia falta dessa sensação de explorador, de aventura diante de uma nova cidade, completamente desconhecida. Vejamos se vai ser uma experiência tão positiva quanto foi Porto Alegre, quase uma década atrás.
Hoje, dei uma passeada pela Vila Madalena, onde talvez vá morar. À noite, fui ao primo rico do meu adorado cinema da CCMQ, e pensei que preciso urgentemente deixar a honestidade de lado e encontrar alguma trapaça que me permita ter meia-entrada nos cinemas de São Paulo. Depois de tantos anos pagando R$ 3,5 para ver um bom filme na CCMQ, não vai ser fácil me acostumar a desembolsar R$ 14 para um cinema no final de semana...
Aliás, vi hoje Entreatos. Grande filme, muito interessante perceber um outro lado do nosso atual presidente. Para quem não viu, o diretor acompanhou Lula durante as últimas semanas da eleição passada, e montou todo seu documentário a partir das imagens dos "entreatos", as reuniões com a equipe, as conversas nos vôos de um comício a outro, as trocas de gravata. Um Lula sempre performático, ciente da presença da câmera mas, ao mesmo tempo, mais livre de formalidades e de protocolos, e por isso mesmo, um Lula interessante de se ver.
Publicado por j_kern_rs às 01:49 AM | Comentários (0)
janeiro 29, 2005
Formatura
Hoje vi formar-se a última remanescente da minha turma de segundo grau, uma amiga de longa data com a qual eu infelizmente conversei bem menos do que deveria desde que vim para Porto Alegre. De fato, sou desses amigos que tem o péssimo hábito de desaparecer, não mandar cartas, telefonemas ou sinais de fumaça. Felizmente, apesar disso, tenho a sorte de conhecer pessoas maravilhosas, que na simplicidade e humanidade da sua trajetória me ensinam do que de melhor tem o ser humano. Eu só tenho admiração por essa pessoa que se formou hoje como cirurgiã dentista, pois sei da luta que foi para entrar na universidade e para conseguir manter-se no curso, o que, mesmo numa universidade gratuita, não é simples -- e espero que o MEC lembre-se disso ao implementar efetivamente seu novo programa de bolsas.
Foi uma bela formatura, apesar de muito longa. E percebeu-se claramente um interessante fenômeno sociológico. O cerimonial das formaturas na UFRGS não deve fugir ao convencional, cada formando chama o seguinte, que se levanta, caminha entre os colegas, vai receber seu diploma e depois fazer seu discursinho. O primeiro terço da turma a se formar foi composto basicamente de mulheres, elas se levantavam, abraçavam uma ou duas colegas e caminhavam até a mesa das autoridades. Após, chegou a vez de um grupo dominado basicamente pelos rapazes. Cada um que era chamado era efusivamente abraçado por todos, formava-se uma verdadeira nuvem de togas que era muito bonita de se ver. A alegria comum e o coleguismo pareciam infinitos. Enquanto isso, as moças da fila de trás ficavam quietas. Eram como duas turmas em uma, e essa divisão em particular contemplou o velho chavão social: os homens formavam um grupo coeso e animado de amigos, as mulheres, parecendo brigadas entre si, mal se cumprimentavam. Os especialistas em comportamento humano que analisem isso.
Depois, na janta, pude rever várias pessoas de meus anos de colégio. Algumas colegas de que me lembro desde o primário agora são mulheres, bonitas, preocupadas com trabalho e carreira. Falaram em organizar um encontro comemorando os dez anos da nossa formatura. Achei uma fabulosa idéia, pena que não deverei estar por perto para ajudar a organizar.
Falando em organizar, tenho que desmontar esse computador e encaixotá-lo. Amanhã, uma longa viagem me espera.
Publicado por j_kern_rs às 03:47 AM | Comentários (2)
janeiro 28, 2005
Injustiça
Pensando hoje de manhã, no ônibus, percebi haver cometido uma grande injustiça com os (bons) poetas no post anterior. Tentei corrigir antes que alguém percebesse, mas foi tarde demais... mea culpa!
Publicado por j_kern_rs às 04:52 PM | Comentários (0)
Há ocasiões...
...em que eu me calo quando, no fundo, sei que deveria falar. Não sou uma pessoa muito simpática. Neste final de semana, minha irmã convidou o seu professor de física do colégio, um rapaz jovem, que deve ainda estar concluindo o curso superior, para tomar um café lá em casa. No fundo, uma das idéias era que eu conversasse com ele, que está cheio de indecisões e bastante deprimido, mas eu não estava muito de palavras. Sei bem o que ele está passando, ou ao menos imagino. Já passei por isso, como acho que qualquer estudante de física. Imagino, na verdade, que seja um momento crucial na formação de um indivíduo, o momento de confrontar suas expectativas com as limitações do mundo, e a decepção pode ser grande. O que você esperava é confrontado com um mundo que lhe oferece muito, muito menos. Você tem perguntas e questionamentos, eles perturbam e no entanto você não consegue encontrar nenhuma resposta, e este permanente questionamento se transforma em cansaço, enfado, tristeza. Você pode chegar a um estágio de completa exaustão intelectual graças a esta falta de respostas.
Acho que entendo o que é isso, mas o que podia eu dizer para aquele professor? Que talvez o maior erro seja procurar eternamente respostas que não existem? Ou confundir a busca por uma resposta pela negação do que sabemos mas não corresponde ao nosso ideal? Que as respostas, existindo, são absolutamente individuais, não precisam necessariamente conversar umas com as outras, podem mesmo ser frontalmente discordantes? Não sei, por algum motivo, não quis dizer isso. Eu poderia ter sido tocado pela empatia, poderia ter-me apresentado como uma pessoa que passou pela mesma situação, formatura em vista, absoluto desgosto pela vida e por tudo que lhe era relacionado, e apresentar-lhe minha resposta. Mas acontece que a única resposta que encontrei nesses anos todos é a que me é repetida a cada dia, quando desperto e me percebo vivo e inteiro: o mundo é esse que está aí, você tem pernas para galgá-lo, braços para agarrá-lo, tem a sorte de estar com saúde e não depender de ninguém para suas atividades básicas, e todas as pretensões de "felicidade" que os publicitários nos inspiram conseguem apenas nos desviar dessa verdade simples. "Felicidade" como um conceito absoluto não existe, e os momentos felizes que pontuam nossa vida são um lucro cuja visão pode nos ser absolutamente negada pela nossa mania de procurar sentido onde sentido não há, desígneo onde desígneo não há. Como vou apresentar essa resposta? O leitor irá achar que ela soa terrivelmente escapista e conformista, e eu não vou tentar argumentar em contrário porque não sei, e na verdade não me importa muito. No que se refere a verdades profundas como essa, a sua absorção e o correspondente efeito em nosso ser importa muito mais do que qualquer relação desta com a Verdade, se tal coisa existe.
O fato é que não quis lhe dizer nada que não fossem amenidades. Não sei se foi desgosto pela lembrança daquela fase da minha vida, se foi a minha crença na individualidade absoluta das respostas às questões mais urgentes, ou simplesmente falta de empatia. Ou a percepção clara de que, muito provavelmente, eu estou enganado, e seria uma tremenda irresponsabilidade tentar propagar o erro.
Uma nova verdade desperta, por falar nisso, no horizonte. Acho que estou ficando antipático. Deve ser a única conclusão real de todas essas elocubrações.
Publicado por j_kern_rs às 02:56 AM | Comentários (2)
janeiro 23, 2005
Curtas
Tem algo de errado nesta cidade. Ontem à noite, eu e meu amigo paramos de carro num cruzamento durante uns três segundos, decidindo se virávamos naquela rua ou não. Foi o suficiente para o paulistano (suponho) que vinha atrás buzinar, irritado. Hoje, em pleno domingo ensolarado na Paulista, a grande avenida destituída de suas levas habituais de gentes e carros e, justamente por isso, tão mais humana e graciosa, vejo um sujeito que não percebe que o sinal abriu (numa das transversais da Paulista, próxima ao MASP) e é buzinado duas ou três vezes por quem vinha atrás. Domingo, as pessoas passeando sob o sol paulistano, e o motorista conseguiu se estressar por cinco segundos de demora num cruzamento. Reformulando minha afirmação inicial, tem algo de muito errado com as pessoas, hoje em dia.
Aparte, visto num vitrine eletrônica, durante meu passeio: discman moderno e cheio de recursos, embalagem com o seguinte título em destaque: "protable cd/mp3 player". Pergunta: se os sujeitos não conseguem nem escrever direito, quem há de confiar em seus produtos? Buenas, só mais uma irrelevância desta leve e irrefletida tarde de domingo.
Publicado por j_kern_rs às 04:19 PM | Comentários (6)
Do outro lado da porta
Enquanto esperava desse lado da porta, pensava que aquele amor tivera uma trajetória única na sua vida, não certamente na história de todos os amores que davam voltas e mais voltas sob o céu desde que o mundo se conhecia como tal e constatara já haver, de longe, visto tudo que havia de se ver. Único porque fora um amor nascido de uma ausência que andava por algum lugar do mundo -- esse mesmo, já tão cansado de tudo ver -- a fazer coisas e a falar com pessoas, a caminhar e olhar para os lados, a fazer enfim tudo que se esperava de ninguém e qualquer um. Como aquela ausência em particular lhe despertara, lhe cativara, era coisa que não entendia muito bem. Como aquela ausência quase sem nome começara a lhe fazer companhia nas noites insones daquele apartamento, olhando pela janela os carros se acotolevando lá embaixo, nos jantares requentados da mesa da cozinha, era algo que não sabia. Ausências conseguem chegar sem que se lhe abram as portas. Ausências não fazem ruído ao caminhar, deitam-se ao seu lado na cama e começam a silenciosamente massagear seu cabelos. Ausências estão lá, o tempo todo, observando-o com olhos de desejo e nostalgia, e se não tomar cuidado você pode acostumar-se a elas, e não existe nada pior nesse mundo do que sentir falta de uma ausência. Enquanto esperava desse lado da porta, lembrava-se, com um cuidado que parecia denotar um carinho inestimável, das poucas vezes que, descuidada, aquela ausência esbarrara em alguma coisa, no escuro, e assim dera sinal, como quem não quer nada, de que estava lá. Talvez seu amor nascera desses descuidos, desses ruídos perdidos na madrugada, e neles se caracterizava a natureza única daquela ausência, dentre tantas outras que perambulavam perdidas pelos corredores.
Quando ouviu uma batida na porta, o sobressalto que esparramou-se pelo corpo indicou o momento em que aquela ausência, tão amada e tão fundamental na rotina de seus dias, apresentou-se sob uma nova forma. Ausências não batem à porta, não tem materialidade bastante para tanto. Antes de destravar a fechadura, pelas veias corria desesperada a procura por uma resposta, o que seria agora que aquela ausência que tanto amava havia se transformado na presença que ousava apresentar-se como uma nova forma de preencher um pouco dos seus tantos espaços abertos?
Ou ainda, que as perguntas que realmente importam sempre se apresentam com várias faces distintas, se silenciosamente aprendera a amar uma ausência tão única e particular, poderia amar também a presença que, do outro lado da porta, esperava, e pretendia tomar seu lugar?
Publicado por j_kern_rs às 12:48 PM | Comentários (2)
Mais perto...

Vi um filme espetacular hoje, aqui em São Paulo. Chama-se "Closer", e você pode ler uma critica aqui. Está tarde demais e estou cansado demais para tentar dizer algo inteligente sobre o filme, exceto que é uma daquelas peças de teatro que chegam ao cinema sem gerar uma obra artificial ou desconfortável com seu próprio formato. É um excelente filme, e traz uma das melhores qualidades que o bom teatro pode oferecer ao cinema: diálogos fantásticos. Tenho uma profunda admiração pelo autor que consegue produzir uma peça que depende tão fortemente de seus diálogos e suceder tão brilhantemente.
"Closer" fala, como tantos outros filmes, dos relacinamentos modernos. Tudo muito despido de fantasias, de pudores, portanto meio cruel e ao mesmo tempo, envolvente. Não é um filme para crianças ou para uma sessão da tarde despretenciosa. É filme para quem quiser sair do cinema com uma profunda satisfação e com uma grande inquietação, que pode até ser um pouco desconfortável.
Em suma, é daqueles filmes que não o deixam indiferente, e isso é muito, muito bom.
Publicado por j_kern_rs às 02:17 AM | Comentários (0)
janeiro 21, 2005
Sexta-feira, serra paulista...
Não foram dias muito animados estes, aprisionado pela chuva constante no hotel onde se realizava a conferência/escola. Vi muitas coisas interessantes nas aulas, e a grande conclusão que ficou é que ainda tenho um longo caminho antes de "ser um desses caras", quero dizer, considerar-me realmente um físico teórico competente. As vezes a tarefa parece tão gigantesca que desanimo um pouco, mas no geral o sentimento é de querer continuar. Após as aulas, como pouquíssimos de meus conhecidos de outros eventos estavam presentes, tive muito tempo para refletir sobre os últimos tempos. Vivi minha semana de considerações de final-de-ano atrasada. Tempo de pensar nas coisas que ganhei, e também naquilo que deixei para trás. Não sei se é muito frutífero pensar em oportunidades perdidas quando se está para iniciar uma nova fase, talvez tenha sido um certo espírito melancólico que o clima londrino me inspirou.
Juan Rulfo continua sendo a companhia que tem aquecido minhas noites. Já estou com vontade de reler seu romance, Pedro Páramo. É das melhores coisas que caiu em minhas mãos recentemente.
Publicado por j_kern_rs às 11:04 PM | Comentários (5)
janeiro 20, 2005
Só queria dizer que...
... esses dias em Campos do Jordão, longe de tudo que me é próximo (até os conhecidos de outros congressos não vieram para este), chuvosos e fechados, me deixaram completamente introspectivo, por isso não tive muito a dizer por aqui. Melhor confessá-lo do que enrolar, francamente.
Semana que vem, devido a uma mudança de planos, voltarei a Porto Alegre. Fica adiada para dia vinte e nove minha mudança definitiva para essas paragens. Graças a essa mudança, vou poder presenciar a formatura de uma velha amiga minha, o que é bom, e adiar meu retorno ao trabalho, o que não é nada bom...
Publicado por j_kern_rs às 09:53 PM | Comentários (0)
Um novo (velho) estudante
Uma semana como estudante, e muito diferente daquele que fui durante a graduação. Naquela época, eu costumava sair da sala quando a aula perdia o interesse e o professor mergulhava numa longa explicação ou cálculo cujo resultado eu já percebia qual seria. Nesta semana, a vontade é de levantar e ir embora quando já não consigo acompanhar quase nada do que é explicado, e isso acontece quase o tempo todo. Deve haver algum senso de justiça cósmica funcionando aqui.
As vezes, no meio dessas explicações que me escapam, tenho que me contentar com prazeres mais fugazes e tangíveis que o prazer da compreensão. Dia desses, completamente perdido no que ia lá pelo quadro-negro, repentinamente senti um maravilhoso perfume chegando até mim. Casualmente, dei-me conta de estar sentado ao lado de uma das poucas mulheres da audiência (apenas quatro alunas entre umas cinquenta ou mais pessoas). No meio do oceano de jovens pesquisadores, uma aluna, que fazia perguntas bem mais inteligentes do que eu seria capaz de fazer naquele momento. E com um delicioso perfume. Durante boa parte daquela aula, era a única coisa que fazia algum sentido.
Poderia pensar, que decadência, do aluno que antevia tudo que o professor pretendia mostrar ao aluno que só consegue aproveitar a presença da encantadora aluna ao seu lado -- e justamente no tipo de curso menos adequado para essa última espécie de atividade. Mas, de novo, pensando melhor, talvez não.
O fato é, difícil acompanhar as idéias que se discutem por aqui. Considerando que há quatro ou cinco anos, nestes congressos/escolas, eu entendia muito menos do que hoje, ao menos dá para pressentir algum progresso.
Comentário lateral: atendo-se à ciência, o que me pergunto não é se um dia serei capaz de encontrar respostas para o que se pergunta hoje em dia em física teórica: é se conseguirei ao menos, um dia, entender as perguntas.
Publicado por j_kern_rs às 09:41 PM | Comentários (0)
janeiro 16, 2005
De partida...
Como alguns já estão sabendo há tempos, estou de mudança. Não virtualmente, fisicamente. Deverei ter menos acesso a computador na próxima semana, mas na última semana do mês isso deve se normalizar. Então não me abandonem por causa da falta de "posts", apenas voltem mais tarde. E me desejem uma boa viagem...
Publicado por j_kern_rs às 02:44 AM | Comentários (0)
janeiro 15, 2005
A morte da sereia (ficção)
Havia um rosto muito, muito triste na multidão da esquina democrática naquela tarde abafada de um dezembro qualquer. Eram tantas pessoas que vinham de lá para cá, carregando seus presentes de última hora, e mesmo assim não consegui tirar os olhos daquele rosto dorido quando casualmente o encontrei no meio da confusão suarenta. Parei, imediatamente, e quando senti o puxão da mãe, que continuava seu caminho apressado, eu disse, "mãe, olha lá". A mulher estava de casaco, apesar do calor estafante, ocupando o banco cativo de algum vagabundo anônimo que não estava ali. Tremia, chorava, não sei. Só sei que seus olhos doíam tanto que grudei meus pés onde estavam e respondi com silêncio a alguma pergunta de minha mãe. Sofrido, o rosto dela era como algo que não podia existir ali, no meio daquele cheiro de cachorro quente e sovaco. Sofrida, era tão linda, apesar. "Mãe, olha só, ela está tirando a roupa." Aí, então, a multidão pareceu dar-se conta daquela aparição em seu meio, da invasora que, como se não suportasse mais, abriu o casaco, deixou-o escorrer até o chão. "Mãe, o que é aquilo?" Na hora não ouvi direito, só depois o eco daquelas palavras, correndo de boca em boca entre os tantos estranhos que pararam um minuto de seu caminho para olhar, chegou aos meus ouvidos. "É uma sereia."
Havia uma sereia deitada naquele banco imundo da esquina democrática, naquele verão tão quente que se evaporava da memória, deixando para trás só um gosto forte de limonada gelada e a sensação de areia de parque entre os dedos dos pés. Eu nunca tinha ouvido histórias de sereias, nunca tinha lido sobre Ulisses, eu sei que quando minha mãe tentou me fazer virar, tentou colocar-se diante daquela visão para me proteger dela, eu desviei, passei por suas pernas, corri e cheguei tão perto quanto podia, até quase poder ouvir a respiração pesada e desesperada da sereia. Estava nua e sua pele toda parecia brilhar, e na sua cauda o reflexo de mil sóis ofuscava a vista. Por que sofria tanto? Agora já tanta gente estava ao redor. Gente suja, gente suada, velhas gordas carregando filhos, meninas impudicas com roupas mínimas, garotos assanhados com olhos pulando da cara, olhos que iam e desfilavam sobre aquela figura, os seios brilhantes, apontando para o céu, o suor que corria pela barriga até encontrar as primeiras escamas. Eu só via aquele rosto, tão sofrido que não conseguia entender como uma coisa tão bonita pudesse conter tanta dor por dentro. Mulheres puxavam os filhos, ouvi tabefes, ouvi gritos de mau-hálito, masculinos, dizendo coisas feias e grosserias. Gente queria dar um passo adiante, queria alcançar aquela figura. Ninguém podia. Alguns tinham medo, outros tinham uma mão por trás puxando, carregando-os para a normalidade daquele dia quente e abafado onde tal não havia. A sereia fechou os olhos. Colocou-se alheia à tudo. Acho que já não podia, não era seu lugar, acho que percebeu que, de alguma forma, era o fim.
Finalmente, olhou para mim. Da última vez que abriu os olhos, logo antes da mãe me puxar por trás e eu me perder na multidão. Quando abriu os olhos, foi a última coisa que vi. A multidão se fechava cada vez mais, ou fui eu que, puxado, tive a impressão? Sei que ela pareceu afundar no meio das gentes. Seus olhos. Passados tantos anos de vida, não me lembro de jamais ter visto coisa igual, tanta solidão, desesperança, e em mim, a impotência, uma coisa que nunca tinha sentido. O que podia um menino em férias, um garoto que ainda pedia dinheiro para ir comprar sorvete no mercado público, e que nada sabia do que é viver sozinho, saber-se estranho, não pertencer? Seus olhos se amarraram nos meus mas era tarde demais. O puxão da mãe me fez cair para trás, um homem colocou-se no meu lugar, um homem suado e enorme, que olhava enquanto esfregava as mãos, ansioso. Outro e outro se colocaram na minha frente, "sai daqui, guri". Enquanto eu me afastava, a multidão se fechava, porque eu já não via por onde voltar, e minha mãe puxando. Já não via a sereia, via só gente, como em qualquer tarde abafada na esquina democrática, gente baixa e gorda, alta e cabeluda, braços suados e bronzeados, e muitas, muitas pernas.
Tanta gente, e nem uma alma capaz de perceber como era dolorido e bonito ver aquela sereia morrendo assim sozinha sobre o coração de asfalto da velha cidade. Sob o sol da tarde portoalegrense, ouvindo o pito de minha mãe sobre me perder, tentei olhar para trás, mas já tudo que via era um bolo de gente, alguns moleques correndo, e os brigadianos já chegando para dizer a todo mundo para continuar seus caminhos, que a tarde corria, a vida continuava, e a cidade, como é sabido, não podia esperar.
Publicado por j_kern_rs às 06:01 PM | Comentários (0)
Clichê...
Não me digam que é clichê. A vida escreve suas velhas linhas indiferentes ao nosso ranço pela obviedade e nosso eterno anseio pela singularidade. Assim, neste último domingo, no mais urbano e trivial recanto imaginável, sentado num posto de gasolina, tomando um café de máquina automática enquanto esperava minha irmã sair da primeira prova do seu vestibular, eu me lembrei de quando ela nasceu. Eu tinha nove anos e era quase dia da criança, começo de outubro, a escola tinha organizado uma excursão a uma sede campestre qualquer, nos arredores da cidade. Lembro-me da mãe preparar-me um lanche, algum delicioso sanduíche que devo ter levado na mesma mochila que me acompanhava sempre à escola. Almocei entre as árvores, numa fria mesa para churrasco, de cimento. Na volta, caminhei do colégio até minha casa, grudento de suor. Para quem não sabe, eu morava na serra gaúcha. Isso significa que eu subi até minha casa -- e era uma subida e tanto. Meus pais já não estavam. Jantei alguma coisa com uma parente e uma vizinha que estavam por lá. Era noite quente, a porta aberta da cozinha, e meu pai apareceu na escada, apressado ou cansado, ou simplesmente feliz, hoje já não sei: minha mãe estava bem, a criança já havia nascido sim. E então segredou-me ao ouvido, "é menina". Comeu alguma coisa, apressado, e voltou para o hospital, deixando todos com a curiosidade -- menos eu.
Nesta semana minha irmã tentou o vestibular para medicina, pela primeira vez. Agora é uma moça bonita, alta, que tem vontade de passear, viver e descobrir, que caminha ao meu lado pela noite da cidade e ignora altivamente os comentários grosseiros dos motoristas que passam por nós. Porto Alegre deve parecer-lhe toda uma imensa possibilidade.
Eu avisei que era clichê. Mas eu vi essa menina chegando em casa, enrolada em panos. Hoje, ela toma uma cerveja comigo para aliviar o calor senegalesco dessa província-capital. Só posso desejar-lhe que Porto Alegre faça-lhe tanto bem quanto fez para mim. Isso é para o futuro: por hora, deixem-me com meus clichês saudosistas.
Publicado por j_kern_rs às 04:37 AM | Comentários (0)
janeiro 14, 2005
Animais urbanos...

Animais urbanos são ariscos, sumamente ariscos. Vivemos atopetados em grandes centros urbanos, dividindo os mesmos ônibus, corredores e salas com centenas, talvez milhares de pessoas durante um dia, e muitas vezes não trocamos uma palavra com quem quer que seja. Vivemos em condomínios e não conhecemos, as vezes, os vizinhos que moram no mesmo corredor. Mas sempre que chego em casa e vejo esse enfeite na porta do fim do corredor, me lembro da curiosa situação em que, para mim, isso foi diferente.
Curiosamente, a responsável por boa parte da minha "socialização" aqui no prédio foi minha gatinha, Karenin. À noite, ela gostava de passear pelos corredores ou, pelo menos, ficar sentada, olhando para o eventual fluxo de pessoas lá fora. Assim, durante anos eu tive o hábito, que muita gente devia achar bastante estranho, de passar várias horas durante a noite com a porta do meu apartamento aberta. Minha mesa de trabalho e o computador ficam junto à porta, assim eu estava sempre aqui próximo e cumprimentava as pessoas que passavam, indo ou voltando para casa. Assim acabei conhecendo pelo menos metade dos habitantes do meu corredor -- justamente aqueles que têm que passar por mim para chegar às escadas.
Desde que Karenin morreu, a porta do meu apartamento fica sempre fechada... e eu nunca mais cumprimentei a vizinha bonita que mora lá no fim do corredor, ou o casal que mora em frente a ela (o homem é mal-humorado), ou o jovem casal cuja porta fica defronte a minha, cujo apartamento minha gata tentava invadir em qualquer oportunidade. Não ficou apenas o vazio das pequenas rotinas que um dono tem com seu animal de estimação, mas também o vazio de um animal urbano excessivamente bem adaptado à rotina solitária e individualista das grandes metrópoles.
Não pretendo ter animais de estimação por um bom tempo -- então quando estiver em casa nova, em algumas semanas, espero encontrar algum outro subterfúgio para conhecer pelo menos as pessoas que dividem o mesmo corredor. Talvez seja bom começar a praticar conversas amenas de elevador.
Agora, tudo isso me ocorreu por um motivo bastante banal -- com a máquina digital da minha irmã por aqui, dispus-me a registrar o fim do meu corredor, notadamente, o enfeite da porta da vizinha mais nova, que sempre cumprimentava tão efusivamente a Karenin, quando chegava em casa, à noite. Como se vê, ela adora gatos. E a simpatia desse enfeite, que posso ver sempre enquanto giro a chave do meu próprio apartamento, tem sido um pálido consolo desde que não tenho os miados da Karenin me recepcionando do outro lado da porta.
Publicado por j_kern_rs às 03:24 AM | Comentários (2)
janeiro 12, 2005
Instabilidades
Estou atualizando a aparência deste blogue. Aguardem algumas estabilidades para os próximos dias...
Publicado por j_kern_rs às 04:33 AM | Comentários (0)
janeiro 11, 2005
Um fragmento de Juan Rulfo...
-- Deve andar vagando pela terra como tantas outras; buscando vivos que rezem por ela. Talvez me odeie pelo mau-trato que dei a ela; mas isso já não me preocupa. Descansei do vício de seus remorsos. Eu me amargava até por causa do pouco que comia, e fazia minhas noites insuportáveis enchendo-as de pensamentos intranqüilos com figuras de condenados e coisas assim. Quando me sentei para morrer, ela rogou que eu me levantasse e que continuasse arrastando a vida, como se esperasse ainda por algum milagre que me limpasse de culpas. Nem tentei: "Aqui o caminho se acaba" disse para ela. "Não me restam forças para mais." E abri a boca para que minha alma fosse embora. E ela foi. Senti quando caiu em minhas mãos o fiozinho de sangue com que estava amarrada ao meu coração.
em Pedro Páramo, de Juan Rulfo
Publicado por j_kern_rs às 02:08 AM | Comentários (2)
Estou ficando importante...
Sabem Grouxo Marx, que jamais entraria para um clube que o aceitasse como sócio? Pergunto-me o quanto de atenção eu deva dar a um biógrafo que queira publicar uma biografia minha. É sério. Recebi uma correspondência endereçada ao Instituto, proveniente de uma editora americana que publica um volume com pequenas biografias -- coisa de quatro ou cinco linhas -- de pessoas com "destacada contribuição à sociedade e grandes realizações profissionais". Chama-se Contemporary Who's Who, algo como "Quem é quem hoje em dia". Funciona assim: alguém reconheceu meu grande valor pessoal e profissional e indicou-me para participar da próxima edição. Sem nenhum custo, eu escrevo minha biografia e envio para eles, e apareço na próxima edição do livro. Claro que eu vou querer uma cópia, e, como eles são muito legais e eu sou uma pessoa tão importante, ganho um desconto especial na aquisição de um exemplar do livro, que sai pela bagatela de 175 dólares. Agora, para coroar a homenagem, eu também posso, por mais 175 dólares, ganhar também uma plaquinha! Já pensaram? Segundo o modelo que vem na carta, seria algo mais ou menos assim,
2004 Honoree
Contemporary Who's Who
"for significante career achievements and contributions to society"
Que beleza, por apenas 350 dólares eu posso ter em casa um livro e uma placa para provar a todos como eu sou uma pessoa importante. É, eu definitivamente adoro o capitalismo.
Publicado por j_kern_rs às 02:04 AM | Comentários (0)
janeiro 09, 2005
Fausto Wolff
Certos livros nos deixam a pergunta não respondida, "o que ainda falta ser dito"? Ou, "como escrever algo depois disso"? Essa a pergunta, "como"? No caso de Fausto Wolff, tanto nos seus romances, quando nos seus artigos, dos quais estou terminando de ler uma recente coletânea, é diferente. A pergunta é, "para que"? Não tanto a forma, mas o objetivo. Para que escrever sobre meu pequeno e irrelevante universo pessoal?
Ainda tenho que escrever mais sobre isso (atentem que essa não é uma promessa, é uma constatação).
Publicado por j_kern_rs às 11:09 PM | Comentários (0)
Comemoração
Regozijai-vos, leitores. Finalmente, estão caindo algumas gotas solitárias de chuva em Porto Alegre dos Casais. Considerando o quanto eu cozinhei sob o sol escaldante nos últimos dias, é bonito só de ver.
Publicado por j_kern_rs às 10:17 PM | Comentários (0)
Rulfo
Depois de alguns anos, deu frutos a recomendação de leitura de um agradável e bastante inteligente mexicano que estava fazendo o mesmo curso que eu em Trieste, em 2002. Os ecos do seu comentário falaram alto quando vi o livro numa estante da Livraria Cultura, há semanas. Agora estou lendo Pedro Páramo, único romance do mexicano Juan Rulfo. Espero terminar antes de viajar já que o excesso de bagagem, percebo, já é mais que uma possibilidade quando pegar o vôo neste domingo... Além disso, nada mal viajar com o gosto de um bom livro ainda na boca.
Publicado por j_kern_rs às 10:09 PM | Comentários (2)
janeiro 07, 2005
Renegado...
Sou uma criatura ilhada, restrita a ambientes climatizados. Não posso voltar para casa, não durante o calor senegalesco de tardes como essa. Sou um renegado.
Publicado por j_kern_rs às 08:26 PM | Comentários (2)
Calor, calor...
Em última instância, é o calor que me motivou a procurar... acabei encontrando o que nem imaginava que existisse. Cliquem na figura aí em cima. Sim, sim, isso existe! Um sítio só com imagens de cerveja! Ainda existe alguma esperança nesse mundo, afinal...
Publicado por j_kern_rs às 03:30 AM | Comentários (2)
janeiro 06, 2005
Entardecendo...
De certa forma, meu ano começa agora. Depois de uma semana longe de tudo que faz parte do meu cotidiano, estou de novo frente ao meu velho computador. Porto Alegre dos Casais está quente e ensolarada e suas avenidas respiram a tranqüilidade típica do período de férias. A cidade está preguiçosa, como não podia deixar de estar, deitada sob o sol impiedoso e o calor maçante que caracterizam a época. Este começo de ano tão familiar, contudo, vai durar pouco.
Não é fácil encontrar motivação para qualquer coisa nesse clima. Não, ao menos, qualquer coisa que envolva movimento e/ou reflexão. Mas passam os dias e, como indivíduo já aclimatado depois de tantos verões, vou dando um jeito de arrumar o que ainda falta para minha mudança e aproveitar um pouco das férias.
Explicando devidamente o parágrafo anterior. Estou de férias, pois recentemente concluí meu doutorado aqui no IF-UFRGS e creio que mereço pelo menos um mês sem pensar seriamente em ciência. E estou de mudança, pois logo esse modesto diário será editado sob o cinzento e tumultuado céu de São Paulo. Com o coração já resmungando de nostalgia, vou deixar a província por alguns anos, que serão poucos ou muitos em conformidade com minha sorte, meu trabalho, e as forças sagradas dos carimbos burocráticos. Por mais que tenha exaltado essa remota província sobre a qual marquei meus passos na última década, chegará a minha vez de descobrir a cidade grande...
Descobertas à parte, existe uma redescoberta que me tem preocupado sobremaneira. Afinal, como é mesmo que se escreve um blogue? Como é mesmo que se escreve? É incrível meu talento para sempre abandonar a escrita, por um motivo ou outro, reencontrando-a, algum tempo depois, mergulhado na dúvida e estupefação.
Felizmente, isso não tem perturbado meu sono.
Publicado por j_kern_rs às 02:50 AM | Comentários (1)
Coisas que só homens malvados fazem...
Aparar, com alguma espécie de tesoura, os pêlos do nariz. Heróis, deuses ou simplesmente pessoas de boa índole não fazem isso. Agora, os mesquinhos, egoístas e cretinos, ah esses... não saem de casa sem fazê-lo!
(Só para fazer algum sentido, pensei nisso numa das últimas vezes que fui ao cinema, tomado de assalto pela sensação de dejá vù quando o caricato vilão da história ocupava-se, justamente, de aparar os pêlos do nariz. Lembrei-me imediatamente que o pai cruel daquele filme holandês, Caráter, também fez isso, numa cena marcante. Que desprezo, que ignomínia! Definitivamente, aparar os pêlos do nariz é um gesto simbólico que demonstra toda a sordidez que contamina o coração humano. O que mais fazem os homens malvados quando não estamos olhando? Não, não quero pensar nisso...)
Publicado por j_kern_rs às 02:49 AM | Comentários (2)

