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janeiro 28, 2005
Há ocasiões...
...em que eu me calo quando, no fundo, sei que deveria falar. Não sou uma pessoa muito simpática. Neste final de semana, minha irmã convidou o seu professor de física do colégio, um rapaz jovem, que deve ainda estar concluindo o curso superior, para tomar um café lá em casa. No fundo, uma das idéias era que eu conversasse com ele, que está cheio de indecisões e bastante deprimido, mas eu não estava muito de palavras. Sei bem o que ele está passando, ou ao menos imagino. Já passei por isso, como acho que qualquer estudante de física. Imagino, na verdade, que seja um momento crucial na formação de um indivíduo, o momento de confrontar suas expectativas com as limitações do mundo, e a decepção pode ser grande. O que você esperava é confrontado com um mundo que lhe oferece muito, muito menos. Você tem perguntas e questionamentos, eles perturbam e no entanto você não consegue encontrar nenhuma resposta, e este permanente questionamento se transforma em cansaço, enfado, tristeza. Você pode chegar a um estágio de completa exaustão intelectual graças a esta falta de respostas.
Acho que entendo o que é isso, mas o que podia eu dizer para aquele professor? Que talvez o maior erro seja procurar eternamente respostas que não existem? Ou confundir a busca por uma resposta pela negação do que sabemos mas não corresponde ao nosso ideal? Que as respostas, existindo, são absolutamente individuais, não precisam necessariamente conversar umas com as outras, podem mesmo ser frontalmente discordantes? Não sei, por algum motivo, não quis dizer isso. Eu poderia ter sido tocado pela empatia, poderia ter-me apresentado como uma pessoa que passou pela mesma situação, formatura em vista, absoluto desgosto pela vida e por tudo que lhe era relacionado, e apresentar-lhe minha resposta. Mas acontece que a única resposta que encontrei nesses anos todos é a que me é repetida a cada dia, quando desperto e me percebo vivo e inteiro: o mundo é esse que está aí, você tem pernas para galgá-lo, braços para agarrá-lo, tem a sorte de estar com saúde e não depender de ninguém para suas atividades básicas, e todas as pretensões de "felicidade" que os publicitários nos inspiram conseguem apenas nos desviar dessa verdade simples. "Felicidade" como um conceito absoluto não existe, e os momentos felizes que pontuam nossa vida são um lucro cuja visão pode nos ser absolutamente negada pela nossa mania de procurar sentido onde sentido não há, desígneo onde desígneo não há. Como vou apresentar essa resposta? O leitor irá achar que ela soa terrivelmente escapista e conformista, e eu não vou tentar argumentar em contrário porque não sei, e na verdade não me importa muito. No que se refere a verdades profundas como essa, a sua absorção e o correspondente efeito em nosso ser importa muito mais do que qualquer relação desta com a Verdade, se tal coisa existe.
O fato é que não quis lhe dizer nada que não fossem amenidades. Não sei se foi desgosto pela lembrança daquela fase da minha vida, se foi a minha crença na individualidade absoluta das respostas às questões mais urgentes, ou simplesmente falta de empatia. Ou a percepção clara de que, muito provavelmente, eu estou enganado, e seria uma tremenda irresponsabilidade tentar propagar o erro.
Uma nova verdade desperta, por falar nisso, no horizonte. Acho que estou ficando antipático. Deve ser a única conclusão real de todas essas elocubrações.
Publicado por JK em janeiro 28, 2005 02:56 AM
Comentários
Eu me senti meio tola lendo esse texto (talvez pela influência da poesia em mim). Mesmo no momento de minhas tristezas ainda acho que posso mudar isso, e ainda que não possa mudar o mundo de verdades não reveladas, penso que posso elaborar meu pensar de forma a não ficar detida na plataforma da conformação, nem ficar pulando para alcançar o que está além da vista ou da própria existência.
Seu texto me inspirou... Isso é fato!
;)
Beijo!
Publicado por: Bailarina das Letras em janeiro 28, 2005 01:03 PM
Pois a verdade, minha querida Bailarina, é que hoje pela manhã me dei conta de haver cometido uma grande injustiça com os poetas... conectei-me só para corrigir antes que alguém lesse, mas foi tarde demais!
Que besteira a minha, a poesia é mesmo a negação completa de qualquer felicidade fácil e ingênua.
Mas vc termina seu comentário com um sorriso... então espero que vc tenha levado na esportiva!
beijos, A.
Publicado por: Alysson em janeiro 28, 2005 05:09 PM
