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janeiro 23, 2005

Do outro lado da porta

Enquanto esperava desse lado da porta, pensava que aquele amor tivera uma trajetória única na sua vida, não certamente na história de todos os amores que davam voltas e mais voltas sob o céu desde que o mundo se conhecia como tal e constatara já haver, de longe, visto tudo que havia de se ver. Único porque fora um amor nascido de uma ausência que andava por algum lugar do mundo -- esse mesmo, já tão cansado de tudo ver -- a fazer coisas e a falar com pessoas, a caminhar e olhar para os lados, a fazer enfim tudo que se esperava de ninguém e qualquer um. Como aquela ausência em particular lhe despertara, lhe cativara, era coisa que não entendia muito bem. Como aquela ausência quase sem nome começara a lhe fazer companhia nas noites insones daquele apartamento, olhando pela janela os carros se acotolevando lá embaixo, nos jantares requentados da mesa da cozinha, era algo que não sabia. Ausências conseguem chegar sem que se lhe abram as portas. Ausências não fazem ruído ao caminhar, deitam-se ao seu lado na cama e começam a silenciosamente massagear seu cabelos. Ausências estão lá, o tempo todo, observando-o com olhos de desejo e nostalgia, e se não tomar cuidado você pode acostumar-se a elas, e não existe nada pior nesse mundo do que sentir falta de uma ausência. Enquanto esperava desse lado da porta, lembrava-se, com um cuidado que parecia denotar um carinho inestimável, das poucas vezes que, descuidada, aquela ausência esbarrara em alguma coisa, no escuro, e assim dera sinal, como quem não quer nada, de que estava lá. Talvez seu amor nascera desses descuidos, desses ruídos perdidos na madrugada, e neles se caracterizava a natureza única daquela ausência, dentre tantas outras que perambulavam perdidas pelos corredores.

Quando ouviu uma batida na porta, o sobressalto que esparramou-se pelo corpo indicou o momento em que aquela ausência, tão amada e tão fundamental na rotina de seus dias, apresentou-se sob uma nova forma. Ausências não batem à porta, não tem materialidade bastante para tanto. Antes de destravar a fechadura, pelas veias corria desesperada a procura por uma resposta, o que seria agora que aquela ausência que tanto amava havia se transformado na presença que ousava apresentar-se como uma nova forma de preencher um pouco dos seus tantos espaços abertos?

Ou ainda, que as perguntas que realmente importam sempre se apresentam com várias faces distintas, se silenciosamente aprendera a amar uma ausência tão única e particular, poderia amar também a presença que, do outro lado da porta, esperava, e pretendia tomar seu lugar?

Publicado por JK em janeiro 23, 2005 12:48 PM

Comentários

Eu leio um texto desse e penso: a inteligência é um presente a ser agradecido sempre. Sabe que todo estudioso se agarra ao seu objeto de estudo e sempre que encontra um desses objetos não tão comuns de encontrar, fica em estado de pura alegria. O texto é meu objeto de estudo e eu li esse em estado de pura alegria.
;)

Publicado por: bailarina das letras em janeiro 23, 2005 11:07 PM

Não sei, Bailarina, se o que escrevo merece ser objeto de estudo, mas se consigo passar uma impressão de beleza aos que me lêem, e se consegui em particular passar-lhe esse estado de alegria, então eu fico muito contente! E mencionei que escrevi isso após ter passado pelo seu blogue?, eh eh... :-)

beijos, A.

Publicado por: Alysson em janeiro 23, 2005 11:32 PM