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janeiro 15, 2005
Clichê...
Não me digam que é clichê. A vida escreve suas velhas linhas indiferentes ao nosso ranço pela obviedade e nosso eterno anseio pela singularidade. Assim, neste último domingo, no mais urbano e trivial recanto imaginável, sentado num posto de gasolina, tomando um café de máquina automática enquanto esperava minha irmã sair da primeira prova do seu vestibular, eu me lembrei de quando ela nasceu. Eu tinha nove anos e era quase dia da criança, começo de outubro, a escola tinha organizado uma excursão a uma sede campestre qualquer, nos arredores da cidade. Lembro-me da mãe preparar-me um lanche, algum delicioso sanduíche que devo ter levado na mesma mochila que me acompanhava sempre à escola. Almocei entre as árvores, numa fria mesa para churrasco, de cimento. Na volta, caminhei do colégio até minha casa, grudento de suor. Para quem não sabe, eu morava na serra gaúcha. Isso significa que eu subi até minha casa -- e era uma subida e tanto. Meus pais já não estavam. Jantei alguma coisa com uma parente e uma vizinha que estavam por lá. Era noite quente, a porta aberta da cozinha, e meu pai apareceu na escada, apressado ou cansado, ou simplesmente feliz, hoje já não sei: minha mãe estava bem, a criança já havia nascido sim. E então segredou-me ao ouvido, "é menina". Comeu alguma coisa, apressado, e voltou para o hospital, deixando todos com a curiosidade -- menos eu.
Nesta semana minha irmã tentou o vestibular para medicina, pela primeira vez. Agora é uma moça bonita, alta, que tem vontade de passear, viver e descobrir, que caminha ao meu lado pela noite da cidade e ignora altivamente os comentários grosseiros dos motoristas que passam por nós. Porto Alegre deve parecer-lhe toda uma imensa possibilidade.
Eu avisei que era clichê. Mas eu vi essa menina chegando em casa, enrolada em panos. Hoje, ela toma uma cerveja comigo para aliviar o calor senegalesco dessa província-capital. Só posso desejar-lhe que Porto Alegre faça-lhe tanto bem quanto fez para mim. Isso é para o futuro: por hora, deixem-me com meus clichês saudosistas.
Publicado por JK em janeiro 15, 2005 04:37 AM
