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janeiro 14, 2005
Animais urbanos...

Animais urbanos são ariscos, sumamente ariscos. Vivemos atopetados em grandes centros urbanos, dividindo os mesmos ônibus, corredores e salas com centenas, talvez milhares de pessoas durante um dia, e muitas vezes não trocamos uma palavra com quem quer que seja. Vivemos em condomínios e não conhecemos, as vezes, os vizinhos que moram no mesmo corredor. Mas sempre que chego em casa e vejo esse enfeite na porta do fim do corredor, me lembro da curiosa situação em que, para mim, isso foi diferente.
Curiosamente, a responsável por boa parte da minha "socialização" aqui no prédio foi minha gatinha, Karenin. À noite, ela gostava de passear pelos corredores ou, pelo menos, ficar sentada, olhando para o eventual fluxo de pessoas lá fora. Assim, durante anos eu tive o hábito, que muita gente devia achar bastante estranho, de passar várias horas durante a noite com a porta do meu apartamento aberta. Minha mesa de trabalho e o computador ficam junto à porta, assim eu estava sempre aqui próximo e cumprimentava as pessoas que passavam, indo ou voltando para casa. Assim acabei conhecendo pelo menos metade dos habitantes do meu corredor -- justamente aqueles que têm que passar por mim para chegar às escadas.
Desde que Karenin morreu, a porta do meu apartamento fica sempre fechada... e eu nunca mais cumprimentei a vizinha bonita que mora lá no fim do corredor, ou o casal que mora em frente a ela (o homem é mal-humorado), ou o jovem casal cuja porta fica defronte a minha, cujo apartamento minha gata tentava invadir em qualquer oportunidade. Não ficou apenas o vazio das pequenas rotinas que um dono tem com seu animal de estimação, mas também o vazio de um animal urbano excessivamente bem adaptado à rotina solitária e individualista das grandes metrópoles.
Não pretendo ter animais de estimação por um bom tempo -- então quando estiver em casa nova, em algumas semanas, espero encontrar algum outro subterfúgio para conhecer pelo menos as pessoas que dividem o mesmo corredor. Talvez seja bom começar a praticar conversas amenas de elevador.
Agora, tudo isso me ocorreu por um motivo bastante banal -- com a máquina digital da minha irmã por aqui, dispus-me a registrar o fim do meu corredor, notadamente, o enfeite da porta da vizinha mais nova, que sempre cumprimentava tão efusivamente a Karenin, quando chegava em casa, à noite. Como se vê, ela adora gatos. E a simpatia desse enfeite, que posso ver sempre enquanto giro a chave do meu próprio apartamento, tem sido um pálido consolo desde que não tenho os miados da Karenin me recepcionando do outro lado da porta.
Publicado por JK em janeiro 14, 2005 03:24 AM
Comentários
Estou chocada JK...
Publicado por: Deméter em janeiro 16, 2005 02:07 AM
Olá Jk, tudo bem?
Nossa quanto tempo...!
Sinto muito pela Karenin, entendo perfeitamente esse tipo de situação e durante algum tempo é normal não querer outro bichinho por perto.
Mas quero aproveitar para te desejar boa sorte em São Paulo. Espero sempre poder ler teus comentários aqui e espero que possas escrever muito também.
Um grande abraço,
Priscila
Publicado por: Priscila em janeiro 20, 2005 11:49 AM
