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janeiro 15, 2005
A morte da sereia (ficção)
Havia um rosto muito, muito triste na multidão da esquina democrática naquela tarde abafada de um dezembro qualquer. Eram tantas pessoas que vinham de lá para cá, carregando seus presentes de última hora, e mesmo assim não consegui tirar os olhos daquele rosto dorido quando casualmente o encontrei no meio da confusão suarenta. Parei, imediatamente, e quando senti o puxão da mãe, que continuava seu caminho apressado, eu disse, "mãe, olha lá". A mulher estava de casaco, apesar do calor estafante, ocupando o banco cativo de algum vagabundo anônimo que não estava ali. Tremia, chorava, não sei. Só sei que seus olhos doíam tanto que grudei meus pés onde estavam e respondi com silêncio a alguma pergunta de minha mãe. Sofrido, o rosto dela era como algo que não podia existir ali, no meio daquele cheiro de cachorro quente e sovaco. Sofrida, era tão linda, apesar. "Mãe, olha só, ela está tirando a roupa." Aí, então, a multidão pareceu dar-se conta daquela aparição em seu meio, da invasora que, como se não suportasse mais, abriu o casaco, deixou-o escorrer até o chão. "Mãe, o que é aquilo?" Na hora não ouvi direito, só depois o eco daquelas palavras, correndo de boca em boca entre os tantos estranhos que pararam um minuto de seu caminho para olhar, chegou aos meus ouvidos. "É uma sereia."
Havia uma sereia deitada naquele banco imundo da esquina democrática, naquele verão tão quente que se evaporava da memória, deixando para trás só um gosto forte de limonada gelada e a sensação de areia de parque entre os dedos dos pés. Eu nunca tinha ouvido histórias de sereias, nunca tinha lido sobre Ulisses, eu sei que quando minha mãe tentou me fazer virar, tentou colocar-se diante daquela visão para me proteger dela, eu desviei, passei por suas pernas, corri e cheguei tão perto quanto podia, até quase poder ouvir a respiração pesada e desesperada da sereia. Estava nua e sua pele toda parecia brilhar, e na sua cauda o reflexo de mil sóis ofuscava a vista. Por que sofria tanto? Agora já tanta gente estava ao redor. Gente suja, gente suada, velhas gordas carregando filhos, meninas impudicas com roupas mínimas, garotos assanhados com olhos pulando da cara, olhos que iam e desfilavam sobre aquela figura, os seios brilhantes, apontando para o céu, o suor que corria pela barriga até encontrar as primeiras escamas. Eu só via aquele rosto, tão sofrido que não conseguia entender como uma coisa tão bonita pudesse conter tanta dor por dentro. Mulheres puxavam os filhos, ouvi tabefes, ouvi gritos de mau-hálito, masculinos, dizendo coisas feias e grosserias. Gente queria dar um passo adiante, queria alcançar aquela figura. Ninguém podia. Alguns tinham medo, outros tinham uma mão por trás puxando, carregando-os para a normalidade daquele dia quente e abafado onde tal não havia. A sereia fechou os olhos. Colocou-se alheia à tudo. Acho que já não podia, não era seu lugar, acho que percebeu que, de alguma forma, era o fim.
Finalmente, olhou para mim. Da última vez que abriu os olhos, logo antes da mãe me puxar por trás e eu me perder na multidão. Quando abriu os olhos, foi a última coisa que vi. A multidão se fechava cada vez mais, ou fui eu que, puxado, tive a impressão? Sei que ela pareceu afundar no meio das gentes. Seus olhos. Passados tantos anos de vida, não me lembro de jamais ter visto coisa igual, tanta solidão, desesperança, e em mim, a impotência, uma coisa que nunca tinha sentido. O que podia um menino em férias, um garoto que ainda pedia dinheiro para ir comprar sorvete no mercado público, e que nada sabia do que é viver sozinho, saber-se estranho, não pertencer? Seus olhos se amarraram nos meus mas era tarde demais. O puxão da mãe me fez cair para trás, um homem colocou-se no meu lugar, um homem suado e enorme, que olhava enquanto esfregava as mãos, ansioso. Outro e outro se colocaram na minha frente, "sai daqui, guri". Enquanto eu me afastava, a multidão se fechava, porque eu já não via por onde voltar, e minha mãe puxando. Já não via a sereia, via só gente, como em qualquer tarde abafada na esquina democrática, gente baixa e gorda, alta e cabeluda, braços suados e bronzeados, e muitas, muitas pernas.
Tanta gente, e nem uma alma capaz de perceber como era dolorido e bonito ver aquela sereia morrendo assim sozinha sobre o coração de asfalto da velha cidade. Sob o sol da tarde portoalegrense, ouvindo o pito de minha mãe sobre me perder, tentei olhar para trás, mas já tudo que via era um bolo de gente, alguns moleques correndo, e os brigadianos já chegando para dizer a todo mundo para continuar seus caminhos, que a tarde corria, a vida continuava, e a cidade, como é sabido, não podia esperar.
Publicado por JK em janeiro 15, 2005 06:01 PM
