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dezembro 31, 2004

Reflexões que não deveriam ser de fim de ano I

Eduardo Galeano não perdoa nada em “De pernas pro ar”, da L&PM editores de Porto Alegre. Todos os aspectos da vida moderna são desmascarados por suas linhas irônicas. As vezes, exagera, mas como contraposição à incapacidade crônica de enxergar alternativas de que todos sofremos, ao menos um pouco, mesmo o exagero tem seu papel. Alternativas, me refiro, ao domínio econômico e cultural dos pobres pelos ricos, a hipocrisia de um mundo rico que fabrica minas para explodir as pernas do pretos pobres e depois cobra muito bem pelo longo e demorado processo de desmontá-las.

Como usual, é claro, Galeano não sugere soluções com tanta desenvoltura quanto aponta os problemas. Por um lado, pode-se dizer que, atendo-se a “descrever” o hoje, de soluções pouco há de se falar e de problemas muito. Por outro, e mais pessimista – será que ainda se consegue imaginar qualquer alternativa que apresente o mínimo de credibilidade? As vezes tenho minhas dúvidas. Honestamente, tenho certeza que eu não seria capaz de fazer melhor que Galeano nesse ponto. Sem alternativas viáveis, há de se aprender um pouco, ao menos, com os erros.

Enquanto leio, a poodle mascote oficial de meus pais vem procurar em mim a última companhia que restou na casa, que todos estão fora. Tenho que ajeitar o livro de tal forma que ela possa deitar-se sobre minhas pernas. Penso que, há milhares de anos, os cães estão assim, ao nosso lado, silenciosamente observando enquanto tratamos de desgraçar o mundo que nos rodeia. Se pudessem falar, tenho certeza que poderiam nos dar ótimos conselhos. A dúvida, afinal, é: iríamos nós leva-los a sério?

Publicado por JK em dezembro 31, 2004 07:29 PM

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