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dezembro 31, 2004

Reflexões que não deveriam ser de fim de ano II

Digam o que quiserem, mas desde que minha televisão queimou no começo de 2004, deixei de ser testemunha de certos aspectos absolutamente detestáveis do mundo moderno. A televisão não me faz falta, aliás. Para filmes, disponho do computador e, muito melhor, do cinema, que de quebra me oferece um café e algumas pessoas ao meu redor, o que sempre dá uma sensação de pertencer a alguma coisa, ao menos por um instante. Quando passo alguns dias na casa de meus pais, como agora, acabo passando algum tempo na frente do televisor. Este se mostra como uma admirável forma de perder tempo nos primeiros dias, mas cansa-me rapidamente e em alguns dias procuro as atividades usuais de minha rotina.

Acho que um dos principais problemas é que o papel do telespectador é por demasiado passivo. É frustrante sentar-se frente a um aparelho e exercer sua “liberdade” apenas através de um aparelhinho que permite escolher um entre oitenta canais. Que liberdade pode ser tão passiva, pode consistir em sentar-se e apenas receber as imagens e palavras que lhe são oferecidas? Desde que cheguei, há quatro ou cinco dias, nada do que eu vi na televisão motivou-me a reflexões que durassem mais que dez segundos. Eu poderia falar do que foi terminar um Galeano e iniciar o último Saramago (oxalá não vá me decepcionar como das últimas vezes), o que foi conversar e até discutir com as pessoas que (re)encontrei, o que foi saber do que se passa com os outros, e dizer o que se passa comigo. Também estou lendo Fausto Wolff, e não dá para lê-lo sem concordar ferozmente, ou ir frontalmente contra, ou oscilar internamente entre um e outro. O que posso dizer, contudo, o que provocou dentro de mim tudo que projetou-se naquele aparelho na sala?

Recordo-me do que observei há poucos minutos, antes de desligar o aparelho e vir sentar-me ao computador. Propaganda de produto para emagrecimento. Primeiro, imagens desfocadas e em preto-e-branco de pessoas obesas, gordas ou mesmo o que chamaríamos simplesmente de “gordinhas”, imagens que obviamente jamais poderiam pertencer a uma pessoa feliz. Enquanto números de telefone aparecem em destaque no vídeo, somos apresentados finalmente, agora sim na plena cor que certamente deve pintar os ares da felicidade a que todos almejamos, a pessoas saudáveis e magras, bonitas e esportivas, que sempre com um sorriso no rosto bebem um líquido de cor mamão. Aprendemos que o tal “Celebrity Diet Juice” – ou algo parecido – já ajudou muitas celebridades a emagrecer até 4kg em 48 horas. Basta para isso abandonar todas as refeições, contentando-se com o líquido-mamão que deve alimentar seu organismo de todos os sais, vitaminas e outras substâncias fundamentais. Para nossa surpresa e felicidade, aprendemos que também podemos comer algumas maçãs para forrar o estômago e assim evitar um desconforto que seria uma estranha mancha no mundo de felicidade estaríamos comprando por aqueles telefones. Magros e felizes – como as celebridades, claro – poderemos assistir à fita que nos será gentilmente enviada de graça, com dicas de alongamento e relaxamento. Curiosamente, todas as pessoas que aparecem na fita são magras, lindas em seus belos trajes de academia.

É essa mistura detestável que tem que suportar quem passa muito tempo na frente da televisão – essa mistura de oportunismo, interesse, preconceito e ilusão que molda o mais popular e universal dos meios de comunicação. Do imenso universo das coisas que não sei, que não acompanho, que não presencio, o universo televisivo é o que menos lamento. Feliz o curto-circuito, o capacitor estourado que me garantiu isso, há quase um ano.

Publicado por j_kern_rs às 07:31 PM | Comentários (4)

Reflexões que não deveriam ser de fim de ano I

Eduardo Galeano não perdoa nada em “De pernas pro ar”, da L&PM editores de Porto Alegre. Todos os aspectos da vida moderna são desmascarados por suas linhas irônicas. As vezes, exagera, mas como contraposição à incapacidade crônica de enxergar alternativas de que todos sofremos, ao menos um pouco, mesmo o exagero tem seu papel. Alternativas, me refiro, ao domínio econômico e cultural dos pobres pelos ricos, a hipocrisia de um mundo rico que fabrica minas para explodir as pernas do pretos pobres e depois cobra muito bem pelo longo e demorado processo de desmontá-las.

Como usual, é claro, Galeano não sugere soluções com tanta desenvoltura quanto aponta os problemas. Por um lado, pode-se dizer que, atendo-se a “descrever” o hoje, de soluções pouco há de se falar e de problemas muito. Por outro, e mais pessimista – será que ainda se consegue imaginar qualquer alternativa que apresente o mínimo de credibilidade? As vezes tenho minhas dúvidas. Honestamente, tenho certeza que eu não seria capaz de fazer melhor que Galeano nesse ponto. Sem alternativas viáveis, há de se aprender um pouco, ao menos, com os erros.

Enquanto leio, a poodle mascote oficial de meus pais vem procurar em mim a última companhia que restou na casa, que todos estão fora. Tenho que ajeitar o livro de tal forma que ela possa deitar-se sobre minhas pernas. Penso que, há milhares de anos, os cães estão assim, ao nosso lado, silenciosamente observando enquanto tratamos de desgraçar o mundo que nos rodeia. Se pudessem falar, tenho certeza que poderiam nos dar ótimos conselhos. A dúvida, afinal, é: iríamos nós leva-los a sério?

Publicado por j_kern_rs às 07:29 PM | Comentários (0)

dezembro 23, 2004

Estou ouvindo...

Um grande disco...

Descubra mais no site da Adriana.

E quem é que conhecia essa música extraordinária?

Ciranda da bailarina
Chico Buarque / Edu Lobo

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga,
tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Berruga nem frieira
Nem falta de maneira ela não tem
Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem
um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida ela não tem
Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina
ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente

Medo de vertigem
Quem não tem
Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem
um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem
O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem,
todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem
Procurando bem
Todo mundo tem...

Publicado por j_kern_rs às 03:34 AM | Comentários (2)

O Retorno

O Retorno

Como estou viajando para passar o feriado com minha família, foi para uma breve despedida que passei hoje para minha querida CCMQ. Tomei meu café com a brisa forte do rio me perturbando e depois assisti na minha salinha favorita um filme maravilhoso. Chama-se O Retorno, criação do diretor russo de nome impronunciável Andrey Zvyagintsev. Você pode ler algumas palavras inspiradas sobre esse filme (e uma interpretação não tão óbvia) aqui e encontrar algumas imagens aqui. Eu apenas digo que superou minhas melhores expectativas para esta tarde. Todo o filme sobrevive da interação entre três personagens, os dois filhos e seu pai, que retorna inexplicavelmente de uma longa ausência e parte com eles para uma longa viagem, muito mal explicada, que acaba se tornando uma jornada para descobrir que papel ele ainda pode ter como pai daqueles garotos, depois de tanto tempo -- se é que ainda pode ter algum. Todo o filme é uma feliz convivência entre a beleza da fotografia e a história misteriosa e envolvente. Excelente.

Infelizmente, não creio que ainda possa se encontrar esse filme em cartaz por aqui; em SP, ele estava rodando quando estive por lá da última vez, em agosto, creio. Quem não viu, deve torcer para que apareça em vídeo ou DVD. Quanto a mim, não quero pensar nos tantos excelentes filmes que perdi nesse ano em que tive tão poucas oportunidades de explorar as preciosidades que a CCMQ de tempos em tempos consegue trazer para essa remota e esquecida província. Ao menos este não escapou-me, para minha sorte.

Publicado por j_kern_rs às 03:26 AM | Comentários (0)

dezembro 22, 2004

Rituais

Há tempos não praticava esse ritual quase sagrado. Uma reorganização profunda na imensa papelada que guardo no apartamento, caixas e caixas de artigos vão para lugares mais civilizados, e muito papel vai para o lixo seletivo. Por algum tempo, pelo menos, quero ver minha mesa quase vazia.

Além disso, hoje limpei minha mesa lá no campus. De ora em diante, a menos de eventuais visitas, não pertencerei mais à sala M208. Trouxe minha xícara para casa e minha toalinha personalizada, obra das passadas aulas de bordado da minha irmã. Se tudo der certo, deverei passar uma boa temporada longe desses corredores que conheço como a palma da minha mão.

Para princípio de conversa, estou de férias, por incrível que pareça.

Publicado por j_kern_rs às 02:36 AM | Comentários (0)

dezembro 19, 2004

Iniciando...

Não é simples recomeçar. Ressentido do meu abandono, meu blogue anterior, o Joseph Kern's Diary, desapareceu definitivamente. Foi preencher a fila infinita das iniciativas pessoais abandonadas que proliferam nesse universo tão volátil e mutante da publicação amadora na internet. Começo, portanto, num momento de transição pessoal para mim, sem saber o que será isto que o amigo tem diante dos olhos. Começo meio que sem saber o que dizer, mas espero que sendo suficientemente honesto comigo mesmo ao tentar escrever minhas verdades e suficientemente honesto com o leitor ao proferir minhas mentiras -- ou ficções, se o leitor prefere uma palavra mais suave -- este blogue que estou criando tenha uma história tão rica quanto teve o primeiro.

É um bom momento para deixar-se surpreender, um pouco, pelo rumo que tomam as coisas com o passar do tempo. Ontem meu antigo colega de apartamento veio buscar suas coisas, e no meio da confusão estava um pacote com algumas folhas minhas. Estavam lá um comprovante de inscrição, um boletim da faculdade lá de 98, as folhas de súmula de algumas das primeiras disciplinas do curso de física. Isso me fez pensar no sentimento que iniciar essa jornada, então sozinho, pela primeira vez, numa grande cidade, e de encarar um desafio intelectual que me fascinava e mostrava-se inesgotável: a humildade intelectual, de saber conhecer tão pouco, foi a maior lição daqueles anos, e justamente aquilo que eu não poderia ter aprendido na escola secundária.

Claro que eu não tinha dimensão de todas as pequenas histórias que caberiam nesses nove anos, desde que cheguei a Porto Alegre dos Casais. Finalmente, terminei o que tinha a fazer por aqui, a tese agora só precisa de algum trato burocrático, e tenho que procurar novos caminhos. E é nesse espírito que tento ressuscitar minha participação no universo blogueiro.

Não deixa de ser um pouco similar a sensação de voltar a escrever em blogue, depois de haver deixado de lado o Joseph Kern's Diary por falta de tempo e de qualquer boa idéia que me motivasse. Não estava nos meus planos eliminar aquele blogue, com todo o histórico de textos e comentários acumulado naquelas páginas. Isso aconteceu automaticamente, após eu deixar de atualizar o blogue por alguns meses meses. Como tecnicamente eu sabia que o blogger.globo.com faria isso, pode-se imaginar que, inconscientemente, eu aceitei o fato de estar fechando e enterrando o Joseph Kern's Diary. Aquele blogue me trouxe muito mais do que podia imaginar inicialmente - e no entanto nos últimos tempos eu estava cada vez mais distante dele, em parte por estar muito focalizado na conclusão do meu doutorado. Me pergunto se vou desenvolver com esse novo blogue o mesmo tipo de envolvimento que tive com o primeiro, e isso eu definitivamente não posso responder agora.

Meu descuido, que eliminou o Joseph Kern's Diary do universo virtual, prefiro ver como uma forma de finalizar definitivamente uma fase da minha vida. Nada melhor, então, do que criar um blogue novo. Não deixa de ser uma tentativa de descobrir algo novo a meu respeito, e a respeito dos demais -- já que um blogue será sempre a união de um (ou mais) autor com um grupo de leitores, tendo um endereço da internet como intermediário. Ao menos, é um blogue dessa espécie que eu gostaria de manter.

Chama-se simplesmente JK's. A identificação com um personagem, um alter-ego, chega ao mínimo, e o pseudônimo transforma-se em duas iniciais, que apenas escondem o nome de quem escreve para não associar excessivamente a obra virtual com a pessoa real. Minha página pessoal e profissional talvez volte a existir nos próximos meses. Por enquanto, abraço a tarefa de dar vida e sustentar uma nova criaturinha virtual, esse JK's que você passará a ler de ora em diante.

Publicado por j_kern_rs às 10:25 PM | Comentários (5)